No seu tricentenário, Cuiabá tenta resgatar título de Cidade Verde

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Por Olhar Direto em 08 de Abril de 2019 ás 06:54

No ano em que a capital mato-grossense comemora os seus 300 anos, ela luta para tentar resgatar o título de Cidade Verde. Ao longo dos anos, o processo de urbanização fez com que os quintais com mangueiras e cajueiros fossem quase extintos. A obra do Veículo Leve Sob Trilhos (VLT), para a Copa do Mundo de 2014, também trouxe uma enorme cicatriz para Cuiabá e tirou cerca de 10 mil árvores somente na região central. Como consequência, surgiram ilhas de calor com temperaturas até 10ºC mais quentes, conforme pesquisa recente feita pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

*Por volta de 1960, com o crescimento urbano, Cuiabá imprimiu novos traços de urbanização que romperam com a fisionomia barroca tradicional. Com o aumento populacional, já na década de 70, a construção da UFMT e o asfaltamento da Avenida Fernando Corrêa da Costa, surgiram comércios que aumentaram a movimentação naquela região. Na mesma década, foi criada o Centro Político Administrativo (CPA), na Avenida Historiador Rubens de Mendonça (Av. do CPA), onde foram transferidos os órgãos públicos. Com o crescimento populacional, entre os anos 70 e 2000, o número de bairros aumentou de 18 para 115. Contudo, pode-se citar a especulação imobiliária, falta de saneamento básico e degradação das áreas de proteção ambiental.

 O secretário de Serviços Urbanos do município cuiabano, José Roberto Stopa, em entrevista ao Olhar Direto, lembrou que os quintais cuiabanos eram cheios de árvores que dão frutos tradicionais. Ele citou que com o desenvolvimento, construção de prédios e outras obras, a capital foi perdendo sua arborização e também seu título de Cidade Verde. “Agora é nossa grande luta no sentido de recuperá-lo”, disse.

 Notado por grande parte da população, a obra do VLT, para a Copa do Mundo de 2014, que nunca ficou pronta, trouxe uma enorme cicatriz na Avenida Tenente Coronel Duarte (Prainha), Avenida Historiador Rubens de Mendonça e em uma parte da Avenida da Feb, em Várzea Grande.

Em 2018, depois de cinco anos empacado, o trecho passou por revitalização e ganhou serviços de paisagismo e jardinagem com o plantio de algumas palmeiras e espécies nativas.

“Acho que o grande fator negativo é o VLT, que de uma forma inconsequente, se abriu um rasgo em Várzea Grande e Cuiabá e simplesmente destruíram tudo. Destruíram talvez as duas avenidas mais bonitas de Cuiabá e Várzea Grande, sem qualquer compromisso de recuperá-las”, contou.

O titular da Pasta acrescentou ainda que durante as obras para a Copa do Mundo, cerca de 10 mil árvores foram retiradas somente da região central da capital. “Cuiabá não se preparou em nível de sustentabilidade. Então, o desenvolvimento ele traz essa consequência, é um dos efeitos colaterais”, acrescentou.

A Avenida Historiador Rubens de Mendonça foi uma das vias mais afetadas. Nela, muita vegetação teve de ser retirada, além de diversas árvores. No trecho onde foi erguido o viaduto da Sefaz, próximo ao Shopping Pantanal, algumas delas foram sacrificadas e transformadas em toras para o avanço das obras.

Na época, o Consórcio VLT afirmou que apenas três árvores ‘tiveram que ser suprimidas’ pela impossibilidade de serem mantidas, por estar justamente no caminho da via permanente (trilhos). O material ficou acumulado no canteiro e foi posterior encaminhamento ao Horto Florestal de Cuiabá, onde esteve à disposição para estudos ou reaproveitamento.

Durante esse processo de urbanização pelo qual Cuiabá passou, retirou-se a vegetação e aumentaram as áreas de construções civis, com isso formam-se as chamadas "ilhas de calor", que são espaços dentro da cidade com temperaturas ainda mais elevadas do que o entorno.

"O surgimento de uma ilha de calor em Cuiabá provoca muito mais impacto na vida das pessoas do que o surgimento em cidades de clima temperado, por exemplo. Em Cuiabá, temos desconforto térmico ao longo de todo o ano pelas próprias características naturais do nosso ambiente, então quando surge uma ilha de calor e provoca o aumento de temperatura, isso faz com que esse desconforto seja inclusive perigoso para as pessoas, com agressão fisiológica", explica o professor e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFMT, José Carlos Ugeda Júnior.

Os indícios científicos foram comprovados de forma empírica com o auxílio de servidores do Juizado Volante Ambiental (Juvam) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). No dia 31 de janeiro, o aparelho psicrômetro do Inmet aferiu a temperatura atmosférica de 37,4ºC na Avenida Historiador Rubens de Mendonça, por volta de 14h30, e 27,6ºC dentro do Parque Mãe Bonifácia, por volta das 15h do mesmo dia.

A presença de vegetação também pode chegar a diminuir até 15 graus Celsius a temperatura da superfície da terra, conforme apontou o termômetro de sensor de superfície do Juvam. No solo gramado, aferiu-se a temperatura de 30ºC, enquanto que, no concreto, a temperatura foi de 45ºC, ambas dentro do Parque Mãe Bonifácia aferidas no mesmo dia.

Embora o secretário aponte que um título não se perde, apenas se descaracteriza, ele acredita que a capital pode voltar a fazer jus a designação de Cidade Verde. Como exemplo citou os projetos 'Disque Cidade Verde' e o 'Verde Novo'. Este último em parceria com o Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).

“Se nós recuperarmos todas as áreas desocupadas hoje, eu não tenho dúvida nenhuma que podemos fazer esse resgate. Se você for analisar, titulo não se perde, se descaracteriza. Só na área central, você pega dez locais que tiveram os quintais completamente destruídos, e assim foi na cidade toda”, afirmou.

 

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